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Por uma rebelião climática: Organizar o pessimismo contra o fatalismo!

Segundo a defesa civil do Rio Grande do Sul, o despreparo governamental do estado para lidar com as fortes chuvas e o negacionismo promovido pelos projetos de desenvolvimento já provocaram 83 mortos, 111 desaparecidos, 276 pessoas feridas e mais de 141,3 mil pessoas fora de casa em 345 dos 496 municípios do estado. A enchente na região metropolitana é histórica e já superou a enchente de 1941.


As cenas que espantam o Brasil todo, mostram rios de lama carregando casas, animais e até pessoas.  A lama que dá a cor aos rios demonstra a destruição dos solos causada pela agropecuária e pela mineração. Com as fortes chuvas, o solo descoberto pelo desmatamento e revolvido pelos tratores ocasionam o processo de erosão que carrega consigo a lama e assoreia os rios.


Cidades inteiras estão submersas com a elevação dos rios, e o pânico coletivo levou ao esgotamento de alimentos nos supermercados. Municípios como Roca Sales e Muçum, também afetados pela chuva de setembro de 2023, que foi mais restrita ao Vale do Taquari, já vislumbram um futuro em que seus habitantes se tornaram refugiados climáticos, dificilmente retornando ao local de origem. Em Santa Maria, a chuva chegou a marcar mais de 200mm diários ao longo de uma semana. E, agora, a região metropolitana de Porto Alegre se vê submersa, com a iminência da situação ficar pior com o estouro da barragem 14 de julho, que deságua no Rio das Antas, potencial alimentador da volumetria do Guaíba, que banha a capital gaúcha.  


Enquanto isso, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), realiza uma performance de bombeiro distribuindo palavras vazias para as milhares de pessoas afetadas. O senador Hamilton Mourão (Republicanos) eleito pelo estado, mas reconhecido morador da rua Sá Ferreira em Copacabana, Rio de Janeiro, destina emendas parlamentares para esse estado, ao invés do estado que lhe elegeu. Não seria diferente, pois a política de ambos caminha lado a lado quanto ao interesse de negação da crise climática e favorecimento das oligarquias, em detrimento dos interesses da classe trabalhadora gaúcha. 


A culpa é da chuva?


O primeiro mito que circula nas redes é que “sempre choveu forte no Rio Grande do Sul [...] por isso tem comportas em Porto Alegre, portanto, não é a crise climática a responsável”. Tal falácia é a retórica de toda a direita negacionista, reforçada pelos grandes jornais que blindam o governo do estado. Tal argumento pode ser facilmente combatido ao mostrar os dados que das seis maiores cheias, quatro foram nos últimos anos (2024, 2023, 2016, 2015), demonstrando o agravamento da crise climática. Outra questão é que, mesmo após as enchentes do ano passado, as verbas dirigidas para lidar com a crise climática foram de apenas 0,6% do orçamento do estado, fato comemorado por Eduardo Leite. 


Em abril, o governo também sancionou na íntegra a Lei Estadual 151/2023 que autoriza intervenções nas Áreas de Preservação Permanente (APP), flexibilizando o Código Estadual de Meio Ambiente e, assim, possibilitando a construção de barragens e açudes em APPs. Em nota técnica os Associação dos Servidores da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Asfepam) já alertaram sobre a importância das áreas de APP e que a construção de represas nesses locais podem afetar os cursos d’água e provocar mais mudanças drásticas nas bacias hidrográficas. Ou seja, com a construção dessas represas em propriedades privadas, e aumento das enxurradas, faz com que a tendência das próximas chuvas sejam ainda piores. 


A flexibilização do Código Estadual do Meio Ambiente é uma bem sucedida parceria entre o agronegócio, as mineradoras e o governo estadual, que conseguiram desmontar todo o arcabouço de proteção ambiental no Rio Grande do Sul. Aliás, na região carbonífera, moradores denunciam que a construção dos diques da Copelmi foi responsável pelo alastramento da água nas cidades. Vale lembrar que a mesma Copelmi queria construir uma mina ainda maior, a chamada Mina Guaíba, com anuência de José Ivo Sartori (MDB) e Eduardo Leite, e só foi impedida pela mobilização popular de ambientalistas e indígenas. A mina teria diques iguais e provocaria, portanto, efeitos iguais. 


Nesse contexto, fazemos este chamado urgente para organizarmos nossa indignação. Não podemos aceitar o fatalismo climático, necessitamos puxar os freios de emergência desse trem rumo ao abismo que chamamos de progresso. Precisamos entender que os projetos de desenvolvimento [des]envolvem as comunidades, e assim como os rios de lama, arrastam e afogam nossos corpos nos arrancando de nossas bases. O colapso climático nos mostra que a organização política é a única possibilidade de sobrevivência. Precisamos organizar nosso pessimismo e construir as saídas de emergência para um novo mundo possível.


Mesmo no caos é momento de esperançar, e falando em esperança, o Rio Grande do Sul é um estado histórico de luta ambiental e camponesa! É momento de retomar a luta por reforma agrária, essa é a única saída para desafogar as cidades do Rio Grande do Sul. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST-RS), inclusive, lançou uma nota de solidariedade aos atingidos e salientando a importância de uma Reforma Agrária Popular baseada na produção agroecológica.


Nessa toada, é evidente que são os de baixo que se socorrem. Enquanto o governo Leite, pateticamente, pede pix para a população; e a burguesia gaúcha não cede nem os seus iates para resgate; a incrível onda de solidariedade vem dos de baixo, dos movimentos sociais ou de trabalhadores indignados. É dessa onda de indignação somada à solidariedade que virão as respostas, em um movimento contínuo e dialético que superará o atual estado das coisas para construir um novo Rio Grande do Sul. 


Ecossocialismo ou barbárie!


Aline Cristina Mello Til é graduanda em Agroecologia 

Mateus de Albuquerque é pesquisador em Política Ambiental 

Sidarta Landarini é antropólogo


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