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Uma breve análise sobre as eleições legislativas de Portugal

Atualizado: 1 de abr.


Ontem, 11 de março de 2024, houve as eleições legislativas em Portugal. Os resultados são desanimadores para a classe trabalhadora, porém, não surpreendem. Em um contexto de ascensão da direita e do fascismo ao nível mundial, Portugal não é exceção. Porém, o tom de dramaticidade se intensifica, pois esse ano se comemora os 50 anos da revolução dos cravos, portanto, é jogado um balde de água fria no que era para ser um ano de luta e rememoração dos revolucionários do 25 de Abril que derrotaram a ditadura Salazarista.


Vejamos, esta eleição teve 33,8% de abstenções, sendo o menor número desde 1995, anunciando um claro engajamento da população [1]. A Aliança Democrática, vencedora das eleições, é uma coligação liderada pelo PSD e composta por partidos da direita tradicional, atingindo 29,49% dos votos e elegendo 79 deputados. Enquanto, o Partido Socialista, que governou 15, dos últimos 20 anos, teve 28,66% e elegeu 77 deputados. O agravamento da derrota da classe trabalhadora nestas eleições se expressa no resultado do Chega, partido fascista que atingiu 19% e elegeu 48 deputados, quadruplicando sua expressão no legislativo português e se firmando como a terceira maior força do país. Enquanto, o Bloco de Esquerda atingiu 4,4% e permaneceu com 5 deputados e a coligação CDU, entre o PCP e o PEV, perdeu dois deputados, e agora tem 4 representantes. Ambos, ficaram atrás do partido de direita Iniciativa Liberal [2].


O primeiro dado para se refletir é que o Chega atinge essa votação com um orçamento menor que o da coligação do PCP com o PEV, e com 200 mil euros a mais que do Bloco de Esquerda [3]. Tal situação abre um campo de possíveis interpretações, por exemplo, o papel da Internet, o espaço que os veículos de comunicação portugueses proporcionaram a Ventura e suas polêmicas. Mas também, evidencia como a extrema-direita capitalizou o sentimento de indignação da classe trabalhadora, pós-crise de 2007, enquanto, a esquerda se acomodou com a institucionalidade do estado burguês. 


Um país com 10 milhões de habitantes, tem quase 2 milhões de sua população vivendo na linha da pobreza, enquanto, o custo de vida, o aumento dos alimentos e da moradia crescem de maneira vertiginosa [4]. O PS no governo não ousou combater o agravamento da crise em sua raiz, por exemplo, adotou uma política efêmera de segurar a inflação, um controle fictício do preço dos alimentos, na qual, as grandes redes de supermercados souberam driblar para manter suas margem de lucro altíssimas. Enquanto, o reajuste do salário mínimo não chegou nem perto de dar conta do aumento da desigualdade crescente, apesar de Portugal ter reajustado para 820 euros, tal valor está muito abaixo dos países da Europa ocidental, fazendo com que Portugal figure junto a países do leste europeu, sendo ultrapassado pela Polônia [5]. Mas enquanto isso, Lisboa é a cidade mais cara para alugar casa na Europa [15].


Tal contexto é atravessado pela questão da imigração, mas também da emigração. Ou seja, embora o número de imigrantes que chegaram a Portugal tenha duplicado nos últimos dez anos [6], Portugal também é o país da Europa ocidental onde mais pessoas vão morar em outros países, praticamente 20% da população portuguesa mora no estrangeiro [7], tal número se intensifica quando o recorte é na população jovem, entre 15 a 39 anos, que representam 30% dos nascidos em Portugal vivendo em outro país [8]. Um país que não fornece bases e nem projeções de futuro para sua juventude, também vê crescer o número de ataques xenofóbicos para aqueles que buscam refúgio no seu país. Os números assustam, simplesmente houve um aumento de 505% de queixas xenófobas em 2021, quando comparado a 2017, e 26,7% são dirigidas a brasileiros [9]. 


Se durante o governo Bolsonaro vimos crescer o número de feminicídios [10] e vimos durante o governo Trump bater recordes de assassinatos com arma de fogo [11], podemos presumir que a vitória da direita em Portugal dará legitimidade e seguridade para expressões de ódio que antes se escondiam no subterrâneo. A contradição da xenofobia portuguesa é tão grande que, enquanto se fortalece o discurso de ódio, os imigrantes são responsáveis por equilibrar as contas da segurança social, ao dar 7 vezes mais de contribuição do que recebem [12]. 


André Ventura do Chega já deu declarações abertas de querer compor governo com a AD [13], enquanto seu líder, Luís Montenegro, reforçou durante a campanha eleitoral que não comporia com a extrema-direita [14]. Portanto, ainda há gestos políticos que definirão o futuro de Portugal, mas sabemos que na hora de praticar a “governabilidade”, a direita tradicional não terá pudor de se aliar com o neofascismo. 


Mas o gesto político da esquerda têm que se fundamentar na indignação da classe trabalhadora contra o aumento da desigualdade no país. É na luta pela moradia, dos professores, nas manifestações contra xenofobia e diversas outras lutas que estão sendo travadas atualmente em Portugal, que surgirão sementes para que no futuro se colha novos cravos, mas também construa um Portugal igualitário nas condições de vida e diverso nas expressões culturais. 


Sidarta Landarini é antropólogo, militante da Rebelião Ecossocialista, e atualmente residente no Porto, em Portugal. 
















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