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E as manifestações de Junho de 2013, hein? (Uma perspectiva ecossocialista)


Por Sidarta Landarini


“É que o anzol da direita fez a esquerda virar peixe” Esquiva da Esgrima - Criolo (2014)


1 - O fascismo não nasceu em 2013


As primeiras décadas do século XXI foram marcadas por uma série de transformações e desafios em todo o mundo. Apesar da tentativa de decretar o fim da História, muitos eventos marcantes ocorreram após a queda do muro de Berlim e a dissolução da URSS. No cenário global, presenciamos eventos como a crise financeira de 2008, que abalou a economia mundial e gerou uma desconfiança generalizada nas instituições financeiras e nos governos. Assim, nasceu, no berço do “vencedor” da guerra fria - os EUA, o movimento Occupy Wall Street em 2011, como resposta aos impactos da crise que atingiu a vida dos trabalhadores estadunidenses e do mundo inteiro. Em 2010 houve a primavera àrabe, carregada de contradições, mas que serviu como aporte de reorganização para a luta curda [1]. Em 2011, surgiu na Espanha o movimento dos Indignados exigindo “democracia real já”. A ascensão do Syriza em torno da “Troika” em 2014, e assim soma-se no contexto internacional diversos outros exemplos da panela de pressão que é viver sob o capitalismo…

No Brasil, o contexto que antecede Junho de 2013 é marcado por ações em defesa do Guarani Kaiowá [2][3], greves dos professores e ocupações estudantis por melhores condições na educação [4], a luta contra Belo Monte [5], e sem dúvida a indignação em ver a desigualdade crescente sendo exposta por conta dos enormes gastos para receber a copa do mundo e as olimpíadas, enquanto nossas vidas estavam cada vez mais caras, sem saúde de qualidade para todxs, com a educação vendida para os magnatas do ensino privado, e o transporte público cada vez mais precarizado. Foi nesse contexto de efervescência social e insatisfação generalizada que surgiram as manifestações de Junho de 2013, e desencadearam uma série de debates e reflexões sobre os rumos do país.





Mas para boa parte da esquerda o contexto que trazemos aqui é simplesmente apagado, reduzindo qualquer contradição para endossar a vaia às mobilizações populares, e assim criar o espantalho que o fascismo nasceu em 2013. Por isso é necessário questionar:

Como que o fascismo nasceu em 2013? Quando o primeiro governo brasileiro advindo da organização das classes populares se ausentou em realizar um processo profundo de julgamento dos militares que participaram da ditadura militar? Não só se ausentou, como incorporou e deixou permanecer diversos “filhotes da ditadura” [6]. Com o atraso de 9 anos, Dilma bancou a comissão da verdade, antes tarde do que nunca, sem dúvida. Mas onde está o julgamento dos criminosos e assassinos militares [37]?

Como que o fascismo nasceu em 2013, quando o partido dos trabalhadores nos seus primeiros governos, se aliou e fortaleceu o neopentecostalismo reacionário em todo país [7][8]? Será que os números de aumento do consumo que o PT gosta de ostentar não foram dirigidos pela teologia da prosperidade? Ou seja, reformulando a pergunta, a televisão nova foi Lula ou Deus que proporcionou [9][10]?

E consequentemente [11], como falar que o fascismo nasceu em 2013, quando o PT, não só fez aliança com milhares de partidos de direita, mas diretamente com partidos que fundaram as mílicias, como PMDB, PTN, PR e afins [12][13][14]? E pelo jeito, continua a alimentar tais relações [15]...

Mas diria que outra pergunta central, que desmonta o mito de 2013 como o nascimento do neofacismo à brasileira é:

Como no último país que aboliu o comércio de pessoas escravizadas, que é o mesmo país que teve o maior partido nazista fora da Alemanha [16], e é o mesmo país que perpetua a naturalização da bárbarie, através da guerra aos pobres (às drogas), na qual tem a polícia militar como braço que assassina e encarcera a população negra [17][18], gerou o fascismo apenas a partir do ano de 2013?


2 - O campo de disputas em 2013


O prólogo de Dilma Rousseff para o livro Junho de 2013: A rebelião fantasma, publicado na Jacobin [19] é curioso em muitos sentidos. O primeiro é seu título assertivo e honesto: “Junho de 2013 foi um levante contra o sistema forjado desde a ditadura militar”. De maneira sintética e também honesta, Dilma explicita sua perspectiva sobre a disputa do movimento, ao se colocar como refém de forças mais fortes que ela, a presidenta da república naquele momento.

Mas esse estado de refém não deve ser lido como atribuição de culpa individual e personalizada a ela, e sim, em como o PT escolheu governar o país desde 2003. Tentando fazer o impossível: Conciliar classes. Como que depois de 10 anos fazendo esse jogo, a presidenta não estaria atada pelas mãos? Não há desejo individual que consiga cumprir, como por exemplo, convocar uma constituinte popular, depois de ter entregue tudo para as mãos da burguesia e feito alianças com as oligarquias assassinas de diversos locais.

Pode-se suspeitar que quando a Dilma fala que o parlamento estava “bem assustado”, também assume, que o PT se incluía nesse susto, especialmente, depois de ter engessado o maior sindicato da América Latina e aparelhado diversos movimentos sociais. Portanto, ao ver milhões de pessoas na rua, por fora das estruturas arcaicas e tradicionais da militância é realmente um assombro. Inclusive, também estava bem assustada as organizações de oposição à esquerda do PT, que optaram por priorizar a relação com o PCdoB e do PT, ao invés de apresentar um programa que representasse o espírito de novas formas de fazer política. Claro que havia um estado de paranoia constante por causa do enorme contingente de P2 que habitava os espaços políticos, universidades, assembleias e afins e o crescimento da pauta “sem partido”. Difícil elaborar respostas apropriadas a estas questões, no tempo exigido, mas tal situação é um demonstrativo do grande despreparo das organizações revolucionárias quando de fato se veem defronte a mobilização popular.

Na rua, o esforço de lutar para conquistar era sugado pela mídia e abafado pelas forças repressivas. Sem dúvida, alguns fatores fizeram os atos crescerem nas primeiras semanas de maneira surpreendente: 1) As pautas reais, concretas que expressavam a indignação da classe trabalhadora brasileira diante do aumento dos custos de vida. 2) O repúdio aos abusos e violência policiais totalmente desproporcionais à dinâmica dos primeiros atos. 3) A compressão do tempo informacional advindo pela dinâmica técnica e algorítmica da internet e das redes sociais.

Se a institucionalidade e a própria esquerda estavam assustadas diante da expressão popular, o cabo de guerra só poderia seguir para o lado de quem sempre comandou o país, a direita. Após o ano do maior número de greves já registradas no país [20], a mídia se esforçou ao máximo, com apoio de diversos governos estaduais e do próprio governo federal em criminalizar os movimentos sociais. No país que mais assassina lutadores por justiça ambiental [21] e o quarto que mais mata defensores de direitos humanos [22], o governo federal do PT sancionou a lei “anti-terrorismo” [23].

Mas não satisfeitos, a mídia com diversos outros setores da burguesia brasileira, como o agronegócio (O agro é pop!), viram uma oportunidade única de retomar a legitimidade da sua ideologia através do voto popular ao construir a candidatura de Aécio Neves. Mas depois de serem derrotados nas urnas, apostaram todas as fichas possíveis na lava-jato - operação jurídica-criminal de tamanho monstruoso e de profundas contradições. Se por um lado cravava as denúncias contra o governo de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, por outro, uma perseguição sedenta e cega que culminaria no golpe à Dilma e a prisão de Lula. Assim a burguesia conseguiu emplacar com facilidade a PEC do congelamento de gastos públicos com o Temer…

Se havia no centro de 2013, um questionamento aos modelos tradicionais de se fazer a política, através de movimentos autodenominados “horizontais, autonomistas e antissistema”, tal como o MPL em São Paulo, ou fórum popular contra o aumento da passagem no Rio de Janeiro, tentando traduzir um desejo de inclusão popular nos rumos do país [24]. A extrema-direita com seus sábios anos de vitimização e mentira, se utilizou dessas bases para criar o mundo imaginário na qual eles eram os excluídos da fatia de bolo. A vida das pessoas continuava a piorar, e o sentimento de indignação não era dirigido pela esquerda.

Por exemplo, se historicamente a esquerda (ampla) criticava a Globo pelo seu conhecido e permanente apoio aos governos de direita, mas a esquerda reformista (PT) se negava a realizar a democratização dos meios de comunicação, simplesmente, a extrema-direita dobrava a aposta e criava canais por fora dos meios de comunicação tradicionais. Assim a esquerda (ampla) cedia nas suas pautas para negociar com a direita moderada, pois, agora somado a justificativa de pragmatismo político, também havia o medo da extrema-direita. O problema é que quanto mais se cedeu, mais a extrema-direita radicalizou, pois seus pilares estruturais de indignação passavam pela criação de um “brasil paralelo” [25], alheio a concretude dos problemas do país, e sim nos bodes expiatórios de mínimas conquistas que a classe trabalhadora a duras penas conquistou nos anos de redemocratização.

A adequação para que todas as universidades federais exercessem a lei de 50% de cotas raciais, sociais e econômicas foi fundamental para mexer com as estruturas confortáveis do pequeno poder branco em espaços cruciais da disputa da sociedade como são as universidades. Além disso, a popularização das universidades obrigaram as organizações de esquerda a repensar seus modelos de organização, não só na questão racial, mas na questão de gênero, lutas LGBTQIA+, acessibilidade à PCDs e toda uma nova onda de vozes que há muitos anos eram ignoradas, agora se fazem ecoar com mais força. Embora o PT queira assumir o protagonismo de tais conquistas, devemos lembrar que quem realmente carrega o direito de clamar para si tais vitórias, é a organização desses setores como classe trabalhadora, através de uma longa história de luta. A expansão universitária, embora positiva, em nenhum momento garantiu a permanência dos estudantes [26].


Isso também se reverbera nos espaços institucionais da política, a partir de pequenas mudanças na formação dos quadros tradicionais que até então habitavam as casas legislativas. Pois, agora há negres, indígenas, trans, mulheres, gays, lésbicas ocupando tais espaços. Mas se avançamos alguns passos, a extrema-direita com seu aparato econômico, de difusão ideológica e armado surge instantaneamente para impedir. E assim, chegamos a 2018.


Se iniciou, a partir da noite do 14 de Março [27], o pior período que a classe trabalhadora brasileira vivenciou desde o sonho da constituição de 1988. Se antes o RJ era o laboratório das milícias, agora o projeto avançou e conquistou o governo federal. 690 mil pessoas foram mortas na pandemia da Covid-19 por conta do negacionismo fascista [28]. O assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips [29]. O aumento do custo de vida a níveis absurdos [30]. Enquanto isso, os militares garantiram, através de desvio de dinheiro público, suas próteses penianas, viagras, salgadinhos, sorvetes e picanha [31][32][33][34]. O sadismo e a perversão sanguinária governou nosso país.


3 - Mas quando que a classe trabalhadora, indígenas, negres, lgbtqiap+, mulheres e todos os oprimidos e explorados no Brasil não estiveram em guerra contra o genocidio do capital?


Realizar esta pergunta não é equiparar ou relevar os últimos anos, mas pelo contrário, alertar que precisamos atacar!

Assim que Lula venceu as eleições começou o processo de mais um novo golpe da extrema-direita no país [35]. Então fica a pergunta, será que não chegou a hora de cumprir com as demandas populares de Junho de 2013? Como, por exemplo, maior participação da classe trabalhadora nos rumos do país? Por isso defendemos que o caminho para se seguir é a construção de um projeto de radicalização em direção à democracia ecossocialista. Sem espaço para chantagem das facções da burguesia e da direita. É necessário levar às últimas consequências, de maneira séria e responsável, o conceito de ruptura/revolução. Convocando a classe trabalhadora para construir e dirigir o próximo grande levante, antes que seja tarde demais [36].



Referências






































Sidarta Landarini é Cientista Social, doutorando em antropologia no PPGSA/UFRJ e em música na UA, militante da Rebelião Ecossocialista.


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