top of page

Um ano da derrota eleitoral de Bolsonaro. O que ainda falta derrotarmos?

Na última semana comemoramos um ano da derrota de Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2022. Comemoramos com razão, pois o triunfo de Lula significou um bloqueio ao aprofundamento das relações do bolsonarismo com o aparato estatal quando este buscava avançar nas estruturas e instituições do Estado com um projeto autoritário, golpista e ultraliberal para o Brasil. Barrar um projeto de extermínio e morte foi fundamental para a manutenção de nossas vidas.


Mesmo com a derrota eleitoral, vimos que o bolsonarismo prosseguiu com seu intento golpista, mas a derrota eleitoral impôs condições desfavoráveis para a sua consolidação, e portanto teve grande importância. É mais do que justo que a comemoremos.


É preciso, contudo, recordarmos que esta derrota eleitoral não significou o fim do bolsonarismo e a desarticulação da extrema-direita e sua agenda de ataques. Mesmo boa parte do entulho reacionário e ultraliberal deixado por Bolsonaro e Guedes segue em vigor, o que nos coloca a necessidade de aprofundar as lutas por sua revogação.


O legado do bolsonarismo vai muito além de suas medidas institucionais, e é parte importante do que precisamos derrotar. A ampliação das bancadas conservadoras e da extrema-direita, o aumento da violência contra as mulheres, a perseguição às LGBTs, a agenda anti-ciência e a legitimação de uma política ecocída e de negacionismo climático também são parte do legado deixado por este governo.


Não estamos entre os que acreditam que o fato do bolsonarismo seguir vivo na base da sociedade e no parlamento deve levar a uma postura acrítica e adesista ao atual governo. Registramos, aliás, que esta é uma posição que prejudica as lutas pela revogação do legado nefasto do governo anterior. Os pactos da frente amplíssima passam pela não reversão das contrarreformas, e isto significa que a bandeira de sua revogação só poderá ser defendida por forças políticas e sociais que se mantenham independentes do condomínio governamental.


Afirmar isto não significa que nos opomos ao governo Lula ou que fazemos coro para a extrema-direita, mas que é preciso defender as medidas progressistas para a classe realizadas pelo governo, e ser capaz de, enquanto partido e movimento social, criar condições para que o legado bolsonarista e a agenda neoliberal da frente amplíssima sejam enfrentados.


É preciso acabar de vez com o plano nacional de desestatização, que ameaça empresas públicas como a CBTU. Revogar as contrarreformas da previdência, o Novo Ensino Médio e a autonomia do Banco Central. Anular a privatização da Eletrobras e do metrô de BH. Reverter a autorização para os mais de 2 mil novos agrotóxicos feita nos últimos 4 anos. Dar condições materiais aos Ministérios destinados à políticas em defesa das mulheres, LGBTs, negras e negros, indígenas, para que construam políticas públicas para enfrentar de fato a precarização e violência que tem sofrido.


E estamos entre aqueles que entendem que a crise ecológica é a que tem dominado a luta de classes no século 21, e se tornará ainda mais importante nos próximos meses e anos, e atuar para impedí-la - o que significa agir contra uma política desenvolvimentista, extrativista de privilégio do agronegócio - é condição para manutenção da vida no planeta.


Tomar todas essas medidas significaria confrontar o legado de Bolsonaro. Poderíamos citar muitas outras. Porém, cada uma delas contraria interesses que estão representados no interior do governo de Lula e Alckmin. Isso explica porque algumas das medidas acima sequer são consideradas.


Aos socialistas, não cabe aguardar que um governo de composição com setores das elites determine as lutas que podem ou não serem travadas. As organizações que ancoram seu discurso numa ideia abstrata de que "o governo precisa dar certo" precisam explicar se consideram que é "dar certo" manter cada uma das questões acima sem resposta.


O ponto que pretendemos destacar aqui é que a independência de classe frente ao atual governo é também uma condição para seguirmos lutando pela revogação do entulho ultraliberal e ecocida do governo anterior.


Se tínhamos claro no passado que era preciso derrotar Bolsonaro, mas também o bolsonarismo, e que esta segunda tarefa era ainda mais complexa, precisamos admitir que é também uma tarefa inconclusa.


Não nos cabe aguardar que a frente-cada-vez-mais-amplíssima apresente as respostas que, por sua composição e objetivo, não serão dadas. Integrá-la na prática, como setores majoritários do PSOL vem fazendo, é impor mais obstáculos para as lutas que precisam ser travadas, impondo à sua dinâmica um ritmo desacelerado, pactuado nos termos de uma governabilidade de rendição aos interesses do Capital.


Uma política independente significa manter cada uma das bandeiras do revogaço de pé. As centenas de bandeiras existentes. Seguir debatendo nos sindicatos, movimento estudantil e popular a importância de lutar mesmo quando isso contraria as composições do governo atual. Fazer isso para manter a independência de classe como princípio de nossa ação política. Por capricho teórico? Não. Porque esta é uma necessidade se quisermos ir além da derrota eleitoral de Bolsonaro, questionando os fundamentos que tornaram possível a sua ascensão e que podem impedir o seu retorno.


Gabriel Augusto é professor de geografia e membro da Coordenação Nacional da Rebelião Ecossocialista


Ana Carolina Andrade é jornalista, militante feminista e membro da Coordenação Nacional da Rebelião Ecossocialista


60 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page