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Ecossocialismo das travestis

Atualizado: 1 de abr.

Visibilidade trans, em grande medida, às pessoas cis, significa uma reflexão honesta sobre onde estão as pessoas trans em sua vida.


As pessoas trans estão em seu local de trabalho? Em sua universidade? Em sua família?


A violência contra pessoas trans se manifesta desde muito cedo na juventude. Serão essas as pessoas que, não se sujeitando aos papéis de gênero imposto ao sexo biológico, serão expulsas do convívio da família.


Em 2014, o Disque 100 registrou 1.792 denúncias de agressões contra pessoas LGBTs, sendo que 1 em cada 6 casos, a violência havia sido praticada por um familiar. Em 2023, o mesmo canal registrou 4.482 violações contra pessoas trans.


Na educação, a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional, de 2015, aponta que, dentre 1.016 estudantes, 36,1% sentem-se em situação de exclusão e agressão nas aulas de educação física, em função da normatividade de gênero imposta. E 38,4% se sentem da mesma forma a respeito do uso de banheiros nas escolas, pelo mesmo motivo.


A compulsoriedade cisheteronormativa, por um lado, reprime uma parcela da classe trabalhadora à cisgeneridade e à obriga a reprodução proletária. Por outro, exclui as pessoas que, à ela, não se conformam.


A cisheteronormatividade capitalista, exclui e invisibiliza as pessoas trans e as obriga a se esconder nos becos e vielas. Para que lá os homens brancos pais de famílias possam encontrá-las, para consumir seus corpos e satisfazer seus desejos reprimidos pela normatividade (e por ela construídos) pagando o menor preço possível, sempre garantido pela exclusão e pelo desespero da fome e do risco de morte.


A ANTRA, Associação Nacional de Travestis e Transexuais, elaborou uma pesquisa estimativa que indica que 90% das pessoas trans, em algum momento da vida, foram condicionadas à prostituição. Movimento que se articula com o fato de o Brasil ser o país que mais consome pornografia envolvendo pessoas trans e, também, o país que mais as mata.


São inúmeras as Matheusas, Cicarellis, Malus, Michellys, Danis e Dandaras. Vítimas de um Brasil hipócrita que as marginaliza, as objetifica, as usa e as mata.


Longe de ser meramente simbólica, a opressão cisnormativa implica em direta exploração de um setor da classe trabalhadora. Obrigadas à posições degradantes sob ameaça de morte. 


A invisibilidade trans é um projeto político que articula as mais diversas instituições. O que nos faz questionar: Onde estão as pessoas Trans nas organizações de esquerda?


Os movimentos sociais de emancipação da sexualidade e da expressão de gênero, há décadas, especialmente após 1960, têm travado intensa batalha contra a opressão capitalista. Mas qual tem sido nossa resposta enquanto esquerda revolucionária?


Que posição as pessoas trans têm ocupado em nossas organizações? De ausência? Token e rosto bonito? Corpos úteis em 29 de janeiro e nas eleições e de incômodo que pauta “questões menores” e “exclusivamente morais” nos outros dias?


Gramsci já pautava a necessidade do “historicismo absoluto, a mundanização e terrenalidade absoluta do pensamento” e, para avançarmos na luta de classe, enquanto esquerda, precisamos, também, historicizar nossa teoria e nossa prática revolucionária.


Para avançarmos, é preciso refletirmos, e criticarmos, as concepções distorcidas (e nada marxistas) que se construíram sobre a pauta anti opressões.


Não é segredo que diversos setores da esquerda receberam a crescente luta anti opressões, vinda diretamente das ruas, do Ferro´s Bar e de Stonewall, com desdém. Tratando-a como menor, um subtema divisionista da luta de classe.


Faltou à esquerda, além de ouvir o clamor das ruas e a voz da classe trabalhadora, voltar-se à teoria marxiana-engeliana, que já no século XIX pautava que o fator determinante da história, em última instância, é a produção e reprodução da vida. Onde gênero e sexualidade ocupam a centralidade da discussão.


A reprodução da vida e a proletarização da classe trabalhadora, condicionada à produção de mão de obra, é central ao capitalismo. E a regulação da família em torno da cisheteronormatividade atua diretamente na produção de novos corpos úteis ao desenvolvimento capitalista, que substituam aqueles explorados até a morte.


A negativa teimosa de conceber a exploração capitalista para além do sujeito universal apertador de parafusos, impediu a esquerda de debater a relação dialética e articulada entre a produção e a reprodução social.


E é preciso encarar com honestidade crítica esse processo, se queremos superá-lo.


O capitalismo, em seu caráter expansionista, estabelecido em um desenvolvimento desigual e combinado, tem operado rápida assimilação das reivindicações por libertação sexual e igualdade de gênero.


Rapidamente se desenvolveu um mercado específico às gays brancas dotadas de aqué. Inúmeras são as marcas com bandeiras de arco-íris que doam às paradas uma fração do excedente de produção roubado da classe trabalhadora, em ações de marketing que tem zero perspectiva de mudança da exclusão que lhes é favorável e de onde retiram lucro.


Mesmo diante do uber rosa, as pessoas trans seguem sendo “o outro”, as estranhas, aquelas a serem usadas e descartadas, incluídas e excluídas, a depender do interesse do capital.


Cabe à esquerda revolucionária rever suas práticas e concepções e refletir sobre a visibilidade trans em nossos espaços. As pessoas trans têm estado presentes? Sido voz ativa? Seus saberes e sua experiência por sobre a exploração capitalista tem feito parte inafastável de nossas políticas? Estamos ativamente buscando ganhar trabalhadoras e trabalhadores trans à revolução que construímos?


Neste dia da visibilidade Trans, às pessoas cis, chamamos a combater este sistema excludente que não apenas marginaliza e explora os corpos trans, como, também, os elimina.


Às pessoas Trans, nos colocamos ao seu lado na luta.


Hoje, mais do que nunca, é preciso abandonar o socialismo dos homens cis brancos e construir o ecossocialismo das travestis.


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