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Há um ano no Brasil, a sombra de uma ditadura nos cobriu

Um ano. Doze meses. 365 dias. Esse é o tempo que separa nosso presente de uma tentativa de golpe, longamente orquestrada, alimentada por parlamentares, altos oficiais das forças armadas e forças de segurança, milicianos, grupos neonazistas, bolsonaristas fascistas e reacionários. Um golpe que pela sua fracassada execução é cinicamente diminuído em uma narrativa sórdida por traidores do povo brasileiro. Nesse segundo editorial da Rebelião Ecossocialista, relembramos o que nunca mais deveremos esquecer e temos a obrigação de levar para as gerações futuras. 


O Brasil não é uma democracia plena, isso nunca será possível no sistema capitalista. Nossas eleições são decididas pelo poder da grana, turbinadas pelos milionários fundos públicos eleitorais e injeções empresariais ilegais, pouco ou nada contidas pelos tribunais eleitorais. No que nós entendemos por democracia, a representatividade é apenas um instrumento de seu exercício direto, da maioria, de participação popular. E a diversidade étnica, de gênero e sexual seria aplicada de forma muito superior aos importantes, embora bastante limitados, avanços alcançados nos últimos dez anos no nosso frágil e débil sistema político. 


Com todas as críticas que fazemos ao sistema atual, reconhecemos os avanços conquistados desde 1988 pelo povo brasileiro e devemos ser conscientes do risco que o  atentado à democracia do 8 de janeiro de 2023 representou para os de baixo no Brasil. É preciso relembrar o que o governo Bolsonaro, líder dos golpistas, matou 700 mil na pandemia, agiu para mudar a composição do Supremo Tribunal Federal com o objetivo de controlar todos os poderes, como uma democracia blindada, aos moldes de Putin, Erdogan, Orbán e tantos outros. O fascista também utilizou a máquina pública a partir da concessão de empréstimos consignados da Caixa Econômica Federal, entregou auxílios fora do orçamento anual previsto nas vésperas da eleição, armou a Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tirar o direito ao voto do eleitorado de oposição ao seu governo, ameaçou violentamente setores e candidaturas adversárias, articulou com setores do empresariado que atuavam como seus cabos eleitorais para que coagissem seus funcionários a votarem nele. Em seu governo, negou dados científicos sobre o desmatamento, sobre a eficácia da vacina, a ineficácia da cloroquina, destruiu biografias movendo robôs nas redes sociais contra qualquer um que o criticava, implodiu relações internacionais comerciais e diplomáticas, atacou dia após dia o serviço público, as mulheres, negritude e população lgbtqiapn+. Desmontou os órgãos de fiscalização do meio ambiente, destruiu o apoio a projetos culturais e ao turismo. Ria das vítimas da crise climática enquanto se enriquecia ilegalmente, às custas do dinheiro público. 


Atos golpistas de 8 de janeiro - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil


Com o fim do mandato, os setores que ocupavam o governo tentaram se manter no poder institucional, mesmo tendo sido derrotados nas eleições presidenciais. Mobilizaram milhares de apoiadores, que por meses estiveram acampados em quartéis-generais, bloqueando rodovias (com a conivência da PRF) e, nos bastidores, reuniram-se com os chefes das forças armadas para convocá-los a um golpe. Alguns fatores contribuíram para que a intentona fosse mal-sucedida. Dentre eles, a não adesão ao movimento por parte do chefe do exército, general Freire Gomes, e a falta de apoio internacional - dessa vez, os EUA não estariam com sua marinha na Baía de Guanabara para garantir a vitória do golpe, como em 1964. 


É importante relembrar também o que alguns setores da esquerda preferem esquecer: os alertas sobre o risco do golpe não foram poucos, sobretudo de grupos que avaliavam ser um erro o esvaziamento eleitoralista do movimento Fora Bolsonaro! A violência política estava até 2022 em uma grande escalada no país e, mesmo com a pandemia, muitas mobilizações pelo impeachment do presidente fascista foram massivas. Na contrapartida, enquanto parte da esquerda priorizava uma agenda eleitoral, Bolsonaro usava sua campanha para mobilizar massas golpistas e fascistas, como no 7 de setembro de 2022. Operou-se uma narrativa de relegar ao movimento organizado um papel ingênuo e pouco efetivo no enfrentamento ao bolsonarismo. Quase um ano depois de sua tentativa fracassada de conspiração, o bolsonarismo sobrevive, também em função da passividade de seus inimigos históricos. 


Há hoje uma disputa de narrativa fundamental que une todo o campo progressista contra a extrema-direita brasileira. Por um lado, devemos desmontar a falácia de que o golpe não passou de uma manifestação inofensiva, desarticulada de lideranças poderosas e sem qualquer conexão com uma série de ações que alimentaram, sobretudo nos anos de Bolsonaro na presidência, questionamentos sobre a segurança das urnas eletrônicas e do sistema político, até mesmo assumindo uma retórica antissistêmica. O 8 de janeiro foi o Capitólio brasileiro, uma ação desesperada, porém profundamente engajada pelo conjunto do bolsonarismo. Por outro lado, devemos seguir em nossas mobilizações, como ocorreu neste 8 de janeiro, em que repudiamos nas ruas qualquer tentativa de anistiar militantes, financiadores e mentores intelectuais do golpe bolsonarista. Salvaguardando o devido processo legal, ninguém pode ser poupado de responder pelos seus atos, de Bolsonaro a militares e forças de seguranças que atuaram ou foram coniventes com o ocorrido, passando por financiadores, influenciadores e figuras públicas que apoiaram o ataque ao país. 


Veremos também uma terceira forma de derrotar o bolsonarismo ou, ao menos, não anistia-lo. Nas eleições municipais de 2024, um processo, em geral, marcado por ainda mais despolitização do que nas eleições presidenciais, precisamos demarcar nitidamente contra o programa bolsonarista, que é um programa ultraliberal, acima de tudo, necropolítico e ecocida. A defesa de campanhas ecossocialistas que defendam radicalmente a democracia, sem qualquer aliança com partidos aliados do bolsonarismo é condição para seguirmos na ofensiva ideológica das ideias negacionistas, conservadoras e destrutivas desse campo político-social. 


É preciso observar que o ovo da serpente do fascismo se chocou e sempre se chocará em um ambiente de crise societária. Na situação atual, com uma crise estrutural instalada no mundo, apresentar soluções que não resolvem os reais problemas da população servirá apenas para abrir espaço para o retorno do bolsonarismo, como foi na Argentina e, possivelmente, será nos EUA neste ano com o retorno de Trump. A luta contra o que o capitalismo produziu de pior não será com o que podemos produzir de menos pior, mas do que podemos apresentar de melhor. A saída é ecossocialista! 



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